Casa moderna da década de 1970 atual como nunca – ou como sempre
Depois de vê-la ao passar pela rua – e conhecer apenas sua parte externa – em 2008, esta casa não saiu da cabeça de um empresário morador da região sul de São Paulo. Passado um ano, quando ele precisava realmente deixar seu antigo apartamento e se mudar para um lugar maior e mais confortável, a compra foi realizada. Apesar do intervalo de tempo, a placa ainda estava lá, à sua espera. Para os partidários das questões que vão além da racionalidade, pode-se dizer que se tratava de um feito do destino.
O fato é que a casa encantou o empresário, e atual morador, que ficou ainda mais lisonjeado quando descobriu que ela levava a assinatura de dois grandes nomes da arquitetura moderna brasileira: Eduardo de Almeida e Arnaldo Martino, sócios na época em que foi projetada. “O antigo proprietário era um chinês, que ao chegar no Brasil se interessou por nossa arquitetura. Ele investiu todo o dinheiro que tinha na construção dessa casa e contratou a dupla de arquitetos na década de 1970”, conta o empresário.
Eduardo e Arnaldo mantiveram a sociedade durante nove anos, e esse foi o primeiro trabalho resultante da parceria. “Foi um período riquíssimo de convívio e eu considero essa obra muito mais do Arnaldo do que minha. Eu não teria a ousadia dele”, diz Eduardo emocionado enquanto recordava as plantas desenhadas a mão com traços precisos em muitas folhas de papel vegetal. A entrevista para a elaboração desta reportagem promoveu o reencontro dos antigos sócios e também deles com o projeto, que estava guardado fazia bastante tempo no escritório de Arnaldo, que enfatiza: “Essa obra tem certo valor didático”.
Com grandes vãos, estruturada sobre pilares de concreto e implantada em um terreno íngreme, a casa possui a ordem convencional dos ambientes invertida. A entrada fica na cobertura e os quartos e o home theater a dois pisos abaixo. “Não fizemos nenhum movimento de terra significativo, só o necessário para encaixá-la no terreno. A ideia principal foi privilegiar a área de lazer, exigência do cliente na época, sem interferir na paisagem”, relembra Eduardo. Por isso, o mais belo e raro volume fica logo na entrada: um terraço com vista árida e impactante de um mar de prédios, casas e avenidas, que até hoje não foi interrompida, apesar do crescimento desenfreado da metrópole.
Outro destaque é a cobertura da garagem, que encheu os olhos do empresário em sua primeira visita ao imóvel: “Parece uma asa, é solta e dá uma sensação de liberdade que me agrada”, explica. Para completar a área de lazer, uma piscina revestida de pedras vindas da Indonésia que parece se fundir com a paisagem. “Hoje esse recurso é muito utilizado, mas há 30 anos ninguém falava em borda infinita. Acho que fizemos a primeira no Brasil”, brinca Arnaldo.
A reforma encomendada pelo novo proprietário aos arquitetos Gabriel e Cristiana Rodrigues durou oito meses e teve como objetivo principal manter as características do projeto original. O concreto da estrutura e o deque de madeira, marcados pelo tempo, não receberam nenhum tratamento, guardando, assim, a memória do espaço. “Eu comprei essa história também, quero preservá-la e mostrá-la”, justifica o morador. Uns dos locais que sofreram mudanças mais expressivas foram as laterais do andar intermediário: os brises de madeira foram trocados por imensos caixilhos que emoldurampanos de vidro. “Além de fechar a casa e manter a privacidade, os brises permitiam a ventilação e o jogo de luzes e sombras. Mas a casa tem vida e precisa absorver as mudanças e as novas necessidades de quem vive lá”, pondera Eduardo.
Como coadjuvante fundamental neste conjunto arquitetônico contemporâneo, a decoração exibe mobiliário sóbrio, entre meado de peças desenhadas por Sergio Rodrigues e Pedro Useche, formando uma base neutra para expor as telas tão estimadas pelo morador. “Compro quadros que me emocionam, não me preocupo muito em saber quem assina. Assim, tenho tido boas surpresas”, diz. A escada metálica, escultural e sinuosa é outra atração do interior. Original do projeto de 1978, ela liga o patamar das salas de estar e de jantar e da cozinha ao piso da área íntima.“Nesse andar os quartos são voltados para a sala, como nas casas de fazenda antigamente. Queríamos valorizar o convívio em família”, fala Eduardo. Lá está o espaço preferido do novo morador, onde ele gosta de relaxar acompanhado de suas coleções de revistas, CDs e livros sobre fotografia, uma de suas paixões. As quatro suítes deram lugar a apenas três depois da reforma, duas delas recebem os filhos, que visitam o pai frequentemente. O quarto do proprietário ganhou marcenaria versátil, tudo com rodízios, o armário maior faz as vezes de cabeceira e a parte frontal integra o closet. “Assim posso mudar o layout quando quiser”, explica. Quando questionado se ainda considera a casa atual, Eduardo de Almeida é categórico: “Se atende às necessidades de quem a habita, ela é atual sim”.
Fonte: Casa.Abril




